
Introdução
É com muita alegria que compartilho um panorama técnico sobre o IX.br e por que ele se consolidou como o maior conjunto de Pontos de Troca de Tráfego (PTT) do mundo. Como residente na Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), pude ver de perto como a topologia de interconexão afeta latência, custos e resiliência das aplicações, e o IX.br é um excelente exemplo disso em escala nacional.
Muitos desenvolvedores e operadores ficam surpresos ao saber que o Brasil alcançou registros de tráfego agregados na casa dos terabits por segundo nas localidades do IX.br. Neste texto eu vou explicar a motivação histórica, a arquitetura técnica, os mecanismos de peering e como tudo isso se traduz em benefícios práticos para provedores, serviços e usuários finais.
Por que um IXP (IX.br) é importante?
Um ponto de troca de tráfego (PTT), conhecido internacionalmente como Internet Exchange Point (IXP), permite que sistemas autônomos (AS) troquem tráfego diretamente, reduzindo dependência de rotas de trânsito e melhorando desempenho. Ao manter tráfego local dentro do país, reduzimos latência e custo de saída para rotas internacionais, algo crítico para aplicações tempo-sensíveis, streaming e serviços em nuvem.
Visão histórica e contexto do IX.br
O IX.br nasceu da necessidade brasileira de trafegar localmente a crescente demanda por conteúdo e serviços. Administrado pelo NIC.br e coordenado pelo CGI.br, o projeto cresceu para dezenas de localidades (PTTs) em todo o país, com milhares de sistemas autônomos participantes e múltiplas conexões por AS em cada cidade.
Como o IX.br funciona na prática
Topologia e localidades
O IX.br é composto por vários PTTs distribuídos em cidades estratégicas (São Paulo, Fortaleza, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, entre outras). Cada PTT é formado por infraestrutura de switching redundante (normalmente switches L2 de alta capacidade) que conecta os participantes por meio de VLANs e enlaces físicos. A agregação dessas localidades cria um ecossistema nacional de troca de tráfego.
Peering: bilateral vs multilateral
Existem duas formas comuns de peering no IX.br:
- Peering bilateral: Acordo direto entre duas redes para trocar rotas via BGP.
- Peering multilateral (via route server): Um roteador centralizado (route server) permite que várias redes estabeleçam sessões BGP com ele e troquem rotas de forma simplificada.
| Tipo | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| Bilateral | Controle total sobre políticas de rota; segurança e filtros dedicados | Escalabilidade limitada (muitos pares exigem muitas sessões) |
| Multilateral (Route Server) | Facilita peering com muitos participantes; reduz número de sessões | Menor controle individual sobre políticas; exige confiança no route server |
BGP e anúncios de rotas
No IX.br, o roteamento é feito via BGP (Border Gateway Protocol). Cada AS anuncia seus prefixos para os pares no exchange, e as decisões de encaminhamento seguem as políticas locais de preferência (local-pref, AS path, MED, entre outras). O uso de filtros RPKI, communities e prefix-lists é recomendado para mitigar anúncios indevidos.
# Exemplo mínimo de configuração BGP (FRRouting/Quagga) router bgp 65000 neighbor 200.0.0.2 remote-as 65001 neighbor 200.0.0.2 description IX.br - Peering network 192.0.2.0/24 ! aplicar prefix-lists e filtros conforme política
Medidas de desempenho: tráfego e recordes
Nos últimos anos o IX.br tem registrado picos de tráfego agregados impressionantes, com localidades como São Paulo alcançando dezenas de Tbit/s em horários de pico. Esses valores consolidam o IX.br como o maior conjunto de PTTs do mundo tanto em volume de tráfego quanto em participação de AS. Fontes oficiais e notas de imprensa do NIC.br e cobertura da mídia técnica confirmam esses recordes.
Arquitetura de resiliência e operações
Para manter disponibilidade, cada PTT do IX.br adota práticas de redundância: múltiplos switches empilhados, enlaces de fibra redundantes entre datacenters, caminhos físicos diversos e monitoramento 24/7. Além disso, políticas de manutenção e janelas programadas são publicadas para participantes, alinhando expectativas e mitigando impactos.
Benefícios práticos para provedores e serviços
- Redução de latência para tráfego local — essencial para jogos online, VoIP e interações em tempo real.
- Redução de custos operacionais com tráfego de trânsito internacional.
- Melhor desempenho percebido por usuários finais ao acessar conteúdos hospedados no país.
Casos de uso e aplicações
No meu caso, ao testar aplicações IoT e serviços embarcados que dependem de APIs em nuvem, notei que provedores conectados ao IX.br apresentavam respostas mais rápidas e menos jitter. Para arquiteturas distribuídas e CDNs, ter múltiplos pontos de presença do IX.br é uma vantagem competitiva.
Boas práticas para participar do IX.br
- Planejar endereçamento IP claro e anúncios filtrados.
- Usar RPKI e filtros anti-spoofing.
- Avaliar peering multilateral via route server para reduzir complexidade inicial.
- Monitorar tráfego e estabelecer SLAs internos para manutenção.
Conclusão
O IX.br é uma peça central da infraestrutura de Internet do Brasil: a sua escala e organização trazem ganhos reais em latência, custo e resiliência. Se você trabalha com redes, IoT ou serviços que dependem de tráfego nacional, vale a pena conectar-se ao IX.br ou garantir que seus provedores o façam. Vou continuar acompanhando as métricas e dividir novas observações práticas em posts futuros.


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