Fonte: O Autor.

A nova versão do InBraille traz duas funcionalidades que estavam na lista de pedidos da comunidade maker e de educadores: a exportação apenas dos pontos (sem a placa de base) e o suporte completo ao Braille chinês (mandarim). Ambas nasceram de uso real, sendo a primeira para quem quer colar pontos Braille em peças já existentes, a segunda para atender demandas de material didático multilíngue em escolas e universidades brasileiras.

O que é o InBraille, em poucas linhas

O InBraille é uma ferramenta brasileira, gratuita e browser-based, que converte texto em Braille e exporta o resultado em ASCII (para leitura em tela ou cópia rápida) e em STL (para impressão 3D). O projeto nasceu de uma demanda do Laboratório de Impressão 3D Inclusiva do Departamento de Computação da UFRPE e segue a 3ª Edição das Normas Técnicas para a Produção de Textos em Braille (MEC, 2018). O nome vem de Inclusão + Braille; a logomarca traz “stl” escrito em Braille (⠎⠞⠇).

Modo “Apenas os Pontos”: pontos soltos para colar onde quiser

Até a versão anterior, o InBraille gerava apenas placas completas: base retangular (ou com cantos arredondados) + calotas dos pontos + marca de orientação (um ponto maior no canto inferior esquerdo). Funciona bem para placas de sinalização, etiquetas e páginas avulsas, mas não resolve o caso de quem quer incorporar Braille em um modelo 3D já pronto — uma tampa de caixa, uma chave de teclado, uma régua tátil, um mapa em relevo.

Agora, nas Opções Avançadas, há a chave “Apenas os Pontos (sem placa)”. Quando ativada:

  • Todas as opções de placa (bordas, espessura, alinhamento, placas separadas) são desativadas automaticamente.
  • O STL gerado contém somente as calotas dos pontos (diâmetro 0,65 mm, altura padrão), dispostos exatamente nas posições que teriam na placa.
  • Uma barrinha de orientação é adicionada na parte inferior do conjunto, substituindo o ponto maior de referência da placa completa. Mantenha a barrinha embaixo/à esquerda ao posicionar ou colar os pontos.

O fluxo prático: converta o texto → ative “Apenas os Pontos” → clique em Gerar e Visualizar STL → confira na prévia 3D (arraste para girar, role para zoom) → baixe o STL. No slicer, importe o arquivo e posicione os pontos sobre a superfície do seu modelo; uma gota de cianoacrilato ou filamento derretido na ponta de cada calota fixa tudo. Testamos com PLA e PETG em impressoras FDM comuns (0,4 mm de bico, camada 0,2 mm) e a adesão é confiável.

Braille chinês (mandarim): pinyin com tons ou hanzi direto

A segunda grande novidade é o seletor de alfabeto “Chinês”, ao lado de “Brasileiro” e “Norte Americano”. O Braille chinês (conhecido como Chinese Braille ou Mandarin Braille) é um sistema fonético baseado em pinyin, não ideográfico: cada sílaba (inicial + final + tom) vira uma ou duas células Braille de 6 pontos.

A implementação aceita duas formas de entrada:

  • Pinyin com números de tom: ni3 hao3 → 你好. O separador obrigatório entre palavras é o espaço.
  • Caracteres hanzi: 你好. O sistema faz a conversão interna para pinyin e depois para Braille.

A conversão cobre o repertório padrão do Braille chinês moderno (GB/T 15822-2008), incluindo iniciais (b, p, m, f, d, t, n, l, g, k, h, j, q, x, zh, ch, sh, r, z, c, s, y, w), finais (a, o, e, i, u, ü, ai, ei, ao, ou, an, en, ang, eng, ong, etc.) e os quatro tons (1 a 4) mais o tom neutro (sem número ou 5). Pontuação comum (, 。 ? ! 、 ; : “” ” ()) também é mapeada.

Exemplo rápido: wo3 ai4 zhong1 guo2 (eu amo a China) gera a sequência de células correspondente a “wǒ ài zhōng guó”. O resultado em ASCII Braille aparece na caixa de resultado e pode ser exportado para STL (com ou sem placa) como qualquer outro alfabeto.

Por que isso importa para makers, educadores e profissionais de acessibilidade

As duas funcionalidades resolvem dores concretas que chegaram até mim via e-mail, issues no GitHub e conversas no laboratório da UFRPE:

  • Makers de teclados e controles adaptados agora podem gerar apenas os pontos das legendas Braille e fundi-los nas keycaps ou painéis que já modelaram no CAD, sem precisar recortar a placa no slicer ou no CAD.
  • Professores de mandarim em escolas inclusivas ganham caminho direto para produzir apostilas, cartões de vocabulário e mapas táteis em Braille chinês, sem depender de software proprietário ou de tabelas manuais.
  • Designers de sinalização tátil podem criar legendas Braille embutidas em placas de acrílico, madeira ou metal impresso, mantendo a conformidade normativa (diâmetro, altura, espaçamento) garantida pelo InBraille.

Tudo continua gratuito, sem cadastro, rodando no navegador. O código-fonte está no GitHub (link no rodapé da ferramenta) sob licença permissiva; quem quiser rodar localmente ou contribuir com correções no mapeamento chinês é bem-vindo.

Passo a passo rápido: gerando pontos soltos em Braille chinês

  • Acesse inbraille.cienciaembarcada.com.br.
  • No seletor “Alfabeto Braille”, escolha Chinês.
  • Digite o texto em pinyin com tons (ni3 hao3 ma1) ou em hanzi (你好吗).
  • Clique em Converter → o resultado em ASCII Braille aparece na caixa inferior.
  • Role até Opções Avançadas → ative “Apenas os Pontos (sem placa)”.
  • Clique em Gerar e Visualizar STL, confira a orientação (barrinha embaixo/à esquerda) e baixe o arquivo.
  • Importe no seu modelo no slicer, posicione os pontos, fatie e imprima.

Limitações conhecidas e próximos passos

Vale registrar o que ainda não está pronto para alinhar expectativas:

  • O Braille chinês usa células de 6 pontos; o InBraille ainda não suporta Braille de 8 pontos (usado em notação matemática e científica avançada em alguns países).
  • A conversão hanzi → pinyin depende de dicionário interno; palavras raras, nomes próprios ou termos técnicos podem sair com tom errado. Recomendo conferir o pinyin gerado (exibido no tooltip ao passar o mouse sobre o resultado) antes de imprimir em lote.
  • O modo “Apenas os Pontos” gera um único STL com todos os pontos. Se você precisar de arquivos separados por linha ou por palavra, a opção “Placas Separadas” continua disponível apenas no modo com placa.

No radar: exportação em STEP/IGES para CAD paramétrico, suporte a Braille coreano e a Braille matemático (Nemeth/UTF-8), e uma API HTTP simples para integração em pipelines de geração automática de material didático.

Referências

  • InBrailleFerramenta oficial (conversor, exportador STL, documentação de uso). Disponível em: https://inbraille.cienciaembarcada.com.br
  • Ciência EmbarcadaPágina do projeto InBraille no blog (histórico, motivação, normas técnicas). Disponível em: https://cienciaembarcada.com.br/inbraille/
  • Ministério da Educação / IBCNormas Técnicas para a Produção de Textos em Braille (3ª edição, 2018). Disponível em: PDF oficial
  • Standardization Administration of ChinaGB/T 15822-2008: Chinese Braille. Norma nacional chinesa para Braille fonético.

Conclusão

O InBraille continua evoluindo a partir de necessidades reais de quem produz material acessível no Brasil. O modo “Apenas os Pontos” abre caminho para Braille embutido em qualquer peça 3D, e o suporte a Braille chinês atende uma lacuna de ferramentas livres em português para o ensino de mandarim inclusivo. Se você usa, testa ou ensina com o InBraille, mande feedback, eu analiso cada relato pessoalmente e, muitas vezes, surge uma nova funcionalidade na versão seguinte baseado nesses relatos.

Para citar esse artigo:

GUERRA DA SILVA, L. R. InBraille ganha novo modo e suporte ao Braille chinês. Ciência Embarcada. Recife. 27 jul. 2026. Disponível em: https://cienciaembarcada.com.br/publicacoes/inbraille-ganha-novo-modo-e-suporte-a-braille-chines/. Acesso em: 11 set. 2026.

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Lucas Guerra

Autista e entusiasta do mundo da tecnologia. Criei esse blog para poder compartilhar conhecimentos e experiências de forma acessível, traduzindo esse infinidades de termos da tecnologia. Eu trabalho com o desenvolvimento de dispositivos IoT e Sistemas Web, indo do desenho de PCBs até a interface com o usuário, e sempre com foco em segurança e inovação.